Subida ao Monte Carmelo

“La Virgen del Carmen”, óleo sobre tela de Juan Carreño de Miranda, séc. XVII.

Pela primeira vez fui ao Carmo. Eram seis e meia da manhã quando cheguei às portas do mosteiro. O zelador, ainda descuidado, talvez por conta do horário, não havia aberto os portões de ferro, imponentes, que delimitam o profano do ambiente sacro.

A cidade começava a despertar, a agonia do cotidiano também. Os condomínios murados, os carros apressados e os pedestres disputando espaço à margem da rua, tudo ganhava vida e movimento — um movimento corrido! –, assim começava uma nova manhã.

O entorno era de um acinzentado desencorajador; as nuvens, de igual modo, não contribuíam. Eram fechadas e de um negrume que ameaçava um dia chuvoso.

Enquanto o zelador contava as chaves, espiei para além dos portões. Adiante formava-se uma pequena via de brita com grama, ornada com algumas árvores e plantas que acompanhavam o trajeto e passarinhos que cantavam o louvor matutino junto ao distante canto das monjas, que se tornava cada vez mais claro ao passo que se aproximava da capela.

Quanto mais avançava, tornava-se outro o clima. As nuvens acinzentadas, de algum modo, realçavam o verde-escuro da grama; o cinza não era mais existencial, mas das britas que apontavam o caminho que deveria ser seguido. O dia nublado perdera seu caráter melancólico e ameaçador, transfigurou-se em clima de oração, introspecção e profundidade, de modo que me faltam palavras…

Em uma só voz o coro das monjas e dos pássaros entoava o ofício das laudes, sustentados pela fortaleza e elegância do mais nobre dos instrumentos. As grades da clausura e as asas das aves, o tom agudo feminino e o grave do órgão de tubos não eram dualidades opostas entre si, mas uma só realidade regida em canto. De uma vinha o sentido; de outro a sustentação e, em um só espírito, louvavam todos a Deus.

Concluídos os primeiros ofícios, prosseguiu-se a missa do modo como deve ser: entre intervalos de orações, dos mais belos cantos, toques de sino e silêncio. Uma missa que propiciava o contato com Deus, sem distrações ou firulas para preencher o vazio da nossa poca fé.

Foi o tempo de uma confissão após a missa e, quando percebemos, o café da manhã estava pronto. Um generoso desjejum nos aguardava numa salinha ao lado do parlatório. Lavados os pratos, recebemos uma boa notícia: seríamos apresentados às religiosas. Tão logo soaram os sinos, abriram-se as portas do outro lado das grades e, seguindo os passos de sua priora, ingressaram as monjas em tamanha quantidade e senso de ordem, que naquele momento a minha alma acostumada à tepidez e mediocridade de outras formas de vida, como o filho de Sta. Isabel, deu um salto de espanto e de alegria, ao sentir a presença do Senhor.

O sacerdote e a priora iniciaram o diálogo; logo, então, todos tomaram parte com entusiasmo, escuta e mútua participação. O que é incomum hoje em dia, mesmo para tipos ditos religiosos.

Nós explicávamos sobre um tal “Seráfico Pai” e qual Ordem dentre as três observâncias seria sua legítima sucessora; as carmelitas, por sua vez, contavam sobre uma “Santa Madre” com tamanha filialidade que o meu ego constrangia-se e se questionava a respeito da própria fé.

Quando nos demos conta, algumas horas haviam passado. As filhas da Santa Madre precisavam retornar às suas atividades, e nós frades, ao nosso convento. A única contrariedade que tive de enfrentar naquele dia foi despedir-me daquele ambiente tão belo e tão agradável.

Enquanto medito estas memórias, sinto saudade e concluo que devo subir ao Monte Carmelo mais vezes, “porque na cidade só se vê violência e discórdia”. Ai “quem me dera ter asas de pomba e voar para achar um descanso!”.

Santa Teresinha do Menino Jesus, rogai por nós!

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