História e Formas do Altar Cristão
Os altares são (ou ao menos, deveriam ser), arquitetônica e liturgicamente, o ponto focal do interior das nossas igrejas. Dada sua evidente importância, não é surpresa que possam haver muitas discordâncias a respeito de qual seria a sua forma ideal. Assim surgem debates acalorados sobre altares independentes versus altares com grandes retábulos anexados.
Foi através da consideração das diferentes concepções de altar, particularmente através dos estudos do Movimento Litúrgico, que surgiu a ideia de fazer uma breve panorâmica na história e desenvolvimento de suas formas.
I. No Cristianismo Primitivo
Se olharmos para o cristianismo primitivo, haverão duas formas primárias de altar que podem ser identificadas. Uma é aquela das igrejas domésticas, que eram feitos de madeira em formato de mesa. Alguns afrescos eucarísticos das catacumbas romanas talvez possam ilustrar e dar-nos certo senso desta forma:
Afresco “Fractio Panis" na Capella Greca da catacumba romana de Sta. Priscila.
A segunda forma era o uso dos túmulos de pedra dos mártires como altares. Considera-se que esse costume remonta à primeira metade do século II. Onde bases de mármore eram fixadas sobre o topo dos túmulos para que a missa fosse celebrada em cima delas.
“O afresco Fractio Panis da Capella Greca, que pertence a este período, é situado diretamente acima de uma pequena cavidade em que Wlipert supõe ter contido as relíquias de um mártir, e é altamente provável que a pedra que cobre esta tumba tenha servido como um altar.” (The Catholic Encyclopedia)
Confira o que é descrito na imagem a seguir:
Ambas as formas, por suposto, parecem bastante ligadas às circunstâncias de sua época, o que é de se esperar. Naquele momento da história da Igreja, os cristãos encontravam-se em tempos de perseguição, estando assim relegados ao esconderijo de igrejas domésticas e catacumbas. Neste contexto, as formas de se construir, ou melhor, adaptar a estrutura do altar seriam influenciadas por aquelas circunstâncias.
II. Na Era das Basílicas Romanas
A construção dos primeiros altares
Altares de madeira continuaram sendo encontrados neste período e até mesmo na Idade Média, embora gradualmente os altares de pedra tenham se tornado cada vez mais e mais preferidos.
A Enciclopédia Católica sugere:
“... o altar de pedra, cujo uso se tornou universal no ocidente, deriva evidentemente do costume de celebrar memórias e festas em honra daqueles que morreram pela Fé. Possivelmente o costume, por si mesmo, foi sugestionado pela mensagem do Livro do Apocalipse (7,9) ‘Eu vi sobre o altar as almas daqueles que foram mortos pela palavra de Deus’. Com a era de paz, especialmente sob o pontificado do Papa Dâmaso (366-384), foram erigidas capelas e basílicas em Roma e em muitos outros lugares em honra aos mártires mais conhecidos, e os altares, sempre quando possível, eram posicionados diretamente acima de seus túmulos. O ‘Liber Pontificalis’ atribui ao Papa. Félix I (269-274) um decreto no sentido de que a Missa deveria ser celebrada nos túmulos dos mártires (…) o que torna claro, pelo testemunho dessa autoridade, que o costume aludido era considerado muito antigo já no século VI (…) A grande veneração que os mártires receberam a partir do século IV, teve considerável influência na efetivação de duas importantes mudanças no que diz respeito aos altares. As lajes cobrindo os túmulos do mártires sugerem o uso de altares de pedra, e a presença de suas relíquias preservadas sob o altar foi responsável pelo surgimento de uma estrutura inferior semelhante a um túmulo conhecido como ‘confessio’. O uso de altares de pedra no oriente é atestado no século IV por São Gregório de Nissa (P.G., XLVI, 581) e São João Crisóstomo (Hom. in I Cor., xx); e no ocidente, a partir do século VI…” (The Catholic Encyclopedia, "History of the Christian Altar").
No que diz respeito aos mártires, sugere-se ainda que nesses tempos, tomou-se grande cuidado a fim de que não perturbassem ou profanassem seus restos mortais, e desse modo, ao invés de suas relíquias serem transladadas às igrejas e seus altares, as próprias igrejas e os altares foram construídos sobre o local de seus túmulos.
Um bom exemplo pode ser notado na Basilica di San Lorenzo Fuori le Mura, em que o presbitério se eleva exageradamente em relação ao nível da nave afim de que o altar seja construído sobre a tumba do mártir sem, entretanto, perturbar o seu túmulo.
Registro fotográfico da Basílica de São Lourenço Fora dos Muros, em Roma.
O Ciborium Magnum
É durante o mesmo período, no século IV, em que vemos o advento do ciborium magnum. Uma estrutura assentada por quatro pilares que cobre o altar, compondo um dos grandes e mais significantes modelos de altar cristão, e que viu algum renascimento durante o Movimento Litúrgico. Esta característica particular deu ao que antes eram, historicamente, altares menores e mais simples, uma proeminência arquitetônica e simbólica. Alguns também sugerem que ele pode ter sido um eco visual do modo como os túmulos de alguns mártires foram cobertos, como os de São Pedro e São Paulo.
Registro fotográfico da Basílica de São Clemente, em Roma.
Registro fotográfico da Igreja de São Jorge em Velabro, em Roma.
Há na Enciclopédia Católica uma interessante descrição do ciborium magnum que originalmente estava na Basílica Laterana:
Os altares das basílicas erigidas por Constantino em Roma eram coroados pelo ciborium magnum, um dos quais, em Laterano era conhecido como "fastigium" e é descrito com alguns detalhes no “Liber Pontificalis”. O telhado era de prata (...) as colunas eram provavelmente de mármore ou pórfiro, como os de São Pedro. Em seu frontão ciborium havia (...) Cristo entronizado em meio aos apóstolos (...) No lado oposto, voltado para a abside, Nosso Senhor estava novamente representado entronizado, mas cercado por quatro anjos com lanças (...) O interior do Ciborium Laterano era revestido de ouro, e do centro pendia um lustre “do mais puro ouro com cinquenta golfinhos do mais puro ouro pesando cinquenta libras, com correntes pesando vinte e cinco libras”. Suspensas a partir dos arcos do ciborium, ou nas proximidades do altar, haviam "quatro coroas do mais puro ouro, com vinte golfinhos, cada um com quinze libras, e antes do altar um lustre de ouro, com oitenta golfinhos, nos quais nardo puro foi queimado".
Reconstrução digital da Basílica Laterana de Constantino.
Estes cibórios em algum ponto, ao menos em alguns casos (como nas grandes basílicas de Roma), também tiveram a presença de véus ou cortinas suspensas ao seu entorno que seriam cerradas ou abertas em determinados momentos, de acordo com a liturgia. Cyril Pocknee anota em sua obra, The Christian Altar, os relatos de vários véus doados pelos papas para esse propósito. Ademais, as hastes e outros mecanismos usados para suspender esses véus continuam em evidência em muitos casos.
Um exemplo de como poderia ter se parecido com os véus cerrados, pode ser observado em um mosaico da igreja de São Jorge em Tessalônica (confira a imagem no canto inferior esquerdo), e existe um raro exemplo moderno em Roma que oferece-nos certo sentido de como se assemelha esse mesmo arranjo com os véus abertos (confira a imagem do canto inferior direito):
Forma e Decoração do Altar
Enquanto os altares modernos tendem a ser estruturas retangulares e alongadas, no primeiro milênio eles eram comumente mais quadrados e menores em sua construção. Um exemplo disso pode ser observado em um afresco encontrado na Basílica de São Clemente, em Roma:
Juntamente com as dimensões da mesa do altar, também se nota certa simplicidade pela falta de qualquer objeto sobre ele, com a exceção dos objetos precisamente utilizados para o Sacrifício Eucarístico.
Em sua obra, The Liturgical Altar, Geoffrey Webb observa que os primeiros altares do período que estamos discutindo eram cobertos com seda fina ou linho, mas não haviam, propriamente, castiçais sobre o altar. Ao contrário, “quaisquer luzes usadas também foram penduradas [no ciborium], ou postas aos degraus ou no podium - isto é: a parede de colunas entre o presbitério e a nave, que ainda podem ser vistas na Igreja de Santa Maria em Cosmedin, em Roma.”. Outras fontes notam a similaridade.
Registro fotográfico da Igreja de Santa Maria em Cosmedin, em Roma.
Onde o sacramento era reservado no altar, nenhum tabernáculo era colocado sobre ele. Ao invés disso, utilizava-se uma píxide pendurada no ciborium, frequentemente em formato de pomba.
Esta é a conclusão da primeira parte. Nos artigos seguintes analisaremos o desenvolvimento contínuo do altar através do curso da idade média até o período moderno.
Confira o texto original disponível em: https://www.liturgicalartsjournal.com
+ Iter Para Tutum +












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